domingo, abril 23, 2006

Clonagem e dignidade humana

Continuo a afirmar que a minha opinião sobre a clonagem de humanos está em formação. Daquilo que li, inclino-me para uma posição favorável, seja da clonagem terapêutica, seja da reprodutiva. Quando me deparar com argumentos que me convençam do contrário, mudarei de opinião. Não me move nenhuma vontade de vencer por alguma das posições.
A 11 de Abril o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV) emitiu um parecer (48/CNECV/06) pela proibição. O argumento principal apresentado para fundamentar esta posição é o de que a clonagem com fins reprodutivos "viola a dignidade humana". O argumento da dignidade humana não me convence uma vez que acho que a dignidade não se perde por se ter nascido por clonagem. O ser humano é muito mais do que o seu património genético ou o historial clínico que levou ao seu nascimento.

Depois de consultar o Relatório Sobre Clonagem Humana de Abril de 2006 da CNECV não consegui perceber aonde é que a clonagem afecta a dignidade humana no que diz respeito ao "carácter único e irrepetível do ser", tal como fora definido por Kant. Também, em abstracto, não vejo como uma pessoa que tenha sido clonada, educada pelo pai, mãe ou educador(es), com desenvolvimento físico , mental e emocional normais, seja privado desta dignidade.

Sou sensível com o príncipio ético da precaução evocado no ponto 4 do parecer verificando-se "ausência de unanimidade ou ampla convergência científica e filosófica acerca da natureza do produto de transferência nuclear somática". Embora não concorde totalmente, parece-me que é conveniente não avançar à força quando há grande resistência nas mentalidades (em parte por uma espécie de repugnância em relação às manipulações de embriões humanos). Há outra razão a que já me referi aqui anteriormente neste blogue: a da segurança. Também me parece sensato apelar à investigação em células estaminais colhidas de indivíduos adultos e na reprogramação celular, tudo com o fim de evitar o recurso exclusivo às técnicas de transferência nuclear somática (pontos 4.1 e 4.2). No entanto, a minha concordância é por um motivo diferente: é que deve-se explorar todas as possibilidades para se conseguir a cura das doenças passíveis de serem combatidas por estas técnicas, seja recorrendo a células estaminais do cordão umbilical, células estaminais reprogramadas ou por células obtidas por transferência nuclear somática.

quarta-feira, abril 19, 2006

Intrões e núcleos

Uma das críticas que se faz à teoria endossimbiótica que explica o surgimento das mitocôndrias e cloroplastos é a incapacidade de explicar a origem d' "a" característica dos eucariontes: a existência do núcleo. Recentemente, surgiu uma hipótese explicativa do surgimento deste organelo (Martin and Koonin. 2006. Nature 440: 41-45) que recorre à observação de que a tradução é mais rápida que o processamento dos mRNAs. Assim, o núcleo terá surgido do desenvolvimento do sistema endomembranar, originando o envelope nuclear com a característica dupla membrana e continuidade do espaço periplásmico com o lúmen do retículo endoplasmático. Deste modo, separaram-se em compartimentos diferentes os processos de processamento de mRNAs (núcleo) e tradução (citosol). A evolução terá então favorecido os organismos que conseguiram esta separação com eficácia, evitando a tradução de produtos de transcrição sem o devido processamento, ou seja, ainda com intrões. Estes terão surgido a partir das mitocôndrias por um mecanismo de transferência de genes (contendo intrões do grupo II, ou seja, com capacidade enzimática de autoprocessamento) para o genoma do hospedeiro que envolveria lise destas mitocôndrias e manutenção de outras. Assim, estariam criados os primeiros spliceossomas num hospedeiro arquebacteriano que já continha mitocôndrias de origem eubacteriana. Isto implica que o núcleo é uma criação posterior às mitocôndrias.
Afinal os processos endossimbióticos também ajudam a explicar a origem do núcleo. O problema da origem da vida e dos primeiros tipos celulares é a dificuldade em testar as hipóteses. Por isso, todas estas matérias são um pouco especulativas sem, no entanto, estarem fundamentadas em observações e, assim, serem válidas cientificamente. Com o avanço da biologia molecular e biologia celular, vai-se produzindo informação que permitirá validar, ou não, esta hipótese.

quarta-feira, abril 05, 2006

Definição de vida: é a replicação um critério válido?


Via blogue Philosophy of Biology, é colocada esta pergunta suscitada pela notícia de que na Universidade de Cornell foi criado por Hod Lipson e colaboradores um robot auto-replicante, o "molecube" (ver aqui o vídeo, é fantástico!). Para além das possibilidades práticas que este tipo de robot pode tornar possível (auto-reparações de robots operários em estações espaciais ou noutros planetas), está a ser despoletada a questão da replicação (produção de cópias exactas) e reprodução (produção de cópias semelhantes). Isto faz-me lembrar o capítulo inicial de "The Origins of Life" de John Maynard Smith e Eors Szathmáry (Oxford) em que é referido o exemplo do fogo como entidade capaz de replicação e até de metabolismo com trocas químicas e de energia com o meio. A capacidade de criar cópias com alguma variabilidade (reprodução) parece distinguir os seres vivos. Esta variabilidade é causada por alteração nas instruções (informação genética nos genes), o que nos distingue do fogo (sem instruções para a replicação) e destes "molecubes", cujo software não me parece que seja passível de modificação por qualquer processo sem intervenção dos criadores (humanos) destes robots.

terça-feira, março 21, 2006

Origami de DNA

De acordo com a notícia da Nature é muito simples: é só desenhar a forma que se deseja com uma só linha, introduzir a representação gráfica no computador (o design do software é que já não deverá ser assim tão simples) para determinar a composição química da molécula de DNA e das pequenas moléculas adaptadoras (agrafes moleculares), bem como o seu número. Depois é aquecer esta mistura de DNAs acima dos 90ºC e deixar arrefecer lentamente. Resultado: os agrafes moleculares de DNA moldam a molécula longa que, assim, desenha a forma original. Simples, não é?
A partir daqui acho que a brincadeira vai acabar (desenho de smileys, flocos de neve, mapa do hemisfério ocidental com 100nm de comprimento). A construção de nanomáquinas com peças de DNA em interacção, nanofábricas com enzimas associadas a estruturas de DNA para permitir reacções catalizadas em sequência estarão muito próximas da realidade.
É espantosa a versatilidade da molécula de DNA!

sábado, março 18, 2006

A Flock of Dodos


Está a dar que falar este filme de Randy Olson, um biólogo marinho da University of Southern California. Não sei se estreará cá, mas estou curioso para o ver (o "trailer" está fantástico). A questão abordada no filme prende-se com um fenómeno muito norte-americano: o conflito entre evolução e criação inteligente em biologia. É incrível a dimensão da discussão que decorre nos EUA sobre este tema em pleno século XXI! Da quantidade de referências nos blogues de ciência, debates na comunicação social, livros dedicados ao tema, deixa-me perplexo, pois parece ser um assunto cientificamente resolvido há muito tempo. Parece que a comunicação de ciência estará a falhar neste capítulo. É o próprio Randy Olson que sugere 10 regras que os evolucionistas devem seguir para melhorar a comunicação.

quinta-feira, março 16, 2006

Do rascunho à versão final


Acaba de sair a sequência definitiva do cromossoma 12 humano (132 megabases, 4,5% do genoma). Tem mais de 1400 genes com 487 directamente implicados em doenças. Daqueles, 1294 são genes conhecidos, 12 são sequências codificantes novas, 34 transcritos novos, 2 genes putativos e 93 pseudogenes. Cerca de 58,3% dos genes expressam transcritos com processamento alternativo, dando uma média de 2,89 transcritos por gene (de que resultam outras tantas proteínas variantes).
Há genes conhecidos neste cromossoma (normalmente dispostos em "clusters"): genes homeobox C, envolvidos no desenvolvimento embrionário; genes codificantes para canais de potássio, importantes na repolarização de membranas; e genes codificantes para aquaporinas envolvidas na regulação da quantidade de água nas células. Outros são conhecidos por razões menos agradáveis, pois o cromossoma tem a fama de estar associado ao cancro por alterações na sua estrutura. Os genes conhecidos implicados são o ETV6 (TEL1), DDIT3 (CHOP), HMGA e outros associados indirectamente.
A análise de sequência e comparação por alinhamento mostrou a origem em galinhas de alguns segmentos (cerca de 72% de homologia com o genoma de galinha), para além de rearranjos com a linhagem de roedores e primatas.

I Encontro Nacional de Pós-Graduação em Ciências Biológicas


Muita actividade em Aveiro por parte de alunos de pós-graduação. É um bom sinal também por isto.

domingo, março 05, 2006

Último número da Gazeta do Cenjor


Parabéns pelo trabalho e que o esforço não fique por aqui.

sábado, março 04, 2006

Não clonarás!

No último número da EMBO reports (vol7, nº3, 2006), Christof Tannert, membro do Grupo de Investigação para a Bioética e Comunicação de Ciência do Centro Max Delbruck para Medicina Molecular em Berlim, num texto duma clareza assinalável intitulado "Thou shalt not clone", faz a defesa da proibição da clonagem reprodutiva de seres humanos. O assunto é interessante sob o ponto de vista ético, social e científico e o tema é inevitável porque a tecnologia já foi aplicada com sucesso, sendo a sua aplicação a humanos uma possibilidade real (será mesmo uma realidade num futuro próximo - não, não dou crédito aos raelitas).
Coloca muito bem o problema, salientando os processos de recombinação genética na formação dos gâmetas e a variabilidade genética dos gémeos monozigóticos por acumulação de mutações e de histórias distintas de interacções com o meio. Parece-me, no entanto, que dá demasiada importância à ocorrência "natural" na formação de gémeos monozigóticos e ausência de uma acção deliberada na criação destes clones.

Se analisarmos bem a questão, a diferença entre gémeos monozigóticos e um clone com o respectivo progenitor é apenas na acção voluntária no acto da clonagem (a variabilidade provocada por mutações e por interacções com o meio aplica-se de igual forma aos dois casos). Nas palavras de Tannert: "Therefore, in the case of natural monozygote twins, there is no human resolution, no conscious decision, no arbitration by any other person. [...] The same holds true for a zygote created by in vitro fertilization [...]". Isto releva para a condenação do acto voluntário da criação de clones quando na natureza há, de facto, criação de clones humanos. Parece haver aqui uma sacralização do acto natural. Sinceramente, não vejo diferença entre dois clones produzidos ao acaso na formação de gémeos monozigóticos e na produção de clones por um processo medicamente assistido (decorreu nidação, gravidez e parto normais e, presume-se, educação dada pelo progenitor).

A questão ética que levanta, com citações de Kant, é a da autonomia do ser humano no sentido em que a sua carga genética não deverá ser condicionada voluntariamente nem o indivíduo ser instrumentalizado de acordo com a vontade de outros. Novamente nas suas palavras: "Every person must be as free as possible from the arbitrariness of others" ou "Our self-determination and our autonomy, and consequently the prohibition to restrict this autonomy arbitrarily by any other person, are among the basic ingredients of human existence". No entanto, há casos de quase perfeita instrumentalização de seres humanos pelo método de procriação sexuada como o de casais que geram um novo filho com o objectivo de criar um dador de medula óssea para outro filho (seu irmão) que necessita de tal transplantação. Não é precisa a clonagem para a instrumentalização de seres humanos. Obviamente, este não é um argumento válido. A questão é a de reconhecer ou não se em todos os casos de reprodução humana há sempre, em maior ou menor grau, instrumentalização do novo ser. É pois comum os pais exibirem orgulho nas parecenças físicas dos filhos, fazerem planos e condicionarem as escolhas profissionais e até sentimentais dos filhos, nas adopções há a tendência para se preferirem determinadas características raciais, etc.

Mas Tannert vai mais longe: "Cloning means using one person-the clone-as the means to fulfil the desires of another person: the clone generator". Esta é uma frase interessante. Para já reconhece implicitamente que o clone é uma pessoa ("...one person-the clone-..."). Depois há a designação "clone generator" (como "artificial construct" ou "artefact" que emprega noutras partes do artigo para designar os clones) que tem ressonâncias de cientista a brincar aos deuses e indicia um vício na análise do problema; será que um clone ao fim de um processo de gestação normal e de educação pelo progenitor não será um ser humano com todas as suas capacidades intelectuais e físicas? Finalmente há a satisfação pessoal do progenitor (o tal "clone generator") que aqui surge com conotação negativa. Então na reprodução sexuada não há também o uso de uma pessoa - o filho - para satisfação doutras pessoas - os pais? Não sei se Tannert já pensou muito sobre a paternidade (e maternidade): tenho muita dificuldade em julgar se as motivações de um casal que tem filhos por procriação sexuada são totalmente desprovidas de interesse ou egoistas, pois poderá ser para a sua (do casal) felicidade em primeiro lugar (e qual é o problema?) ou apenas para a criação de um novo ser humano autónomo.

Os argumentos apresentados por Tannert não me convenceram. Continuo com a mesma perspectiva que me foi fornecida pelo livro On Cloning (Routledge, 2004) de John Harris. Ou seja, há apenas um argumento forte para a proibição da clonagem reprodutiva, o da segurança. Reconheço no entanto que Tannert tem razão quando refere a subtítulo que a sua comunicação é um argumento ético contra a clonagem reprodutiva. É de facto ético o seu argumento porque trata-se de um argumento moral. Continuo a preferir argumentos racionais.

sábado, fevereiro 18, 2006

Gazeta do Cenjor II

Afinal a Gazeta do Cenjor não vai ter vida longa; o projecto terminará no próximo número que coincidirá com o fim do curso de Jornalismo de Ciência e Tecnologia. Fico à espera do número 2 e desejo o maior sucesso para os recém-formados jornalistas.

Arbitragem em discussão

Uma das vantagens da ocorrência de acontecimentos negativos é a do poder que têm em provocar reflexão autocrítica e também a de possibilitar valorizar coisas a que estamos habituados a ter e que parecem fazer parte da ordem natural. A questão das caricaturas dinamarquesas fez-me lembrar como é importante a liberdade de expressão e como esta poderá estar em risco a avaliar por algumas reacções públicas por parte de responsáveis políticos. As fraudes científicas de Hwang e Sudbø tiveram eco na comunicação social, tendo mesmo, a de Hwang, forte impacto social e político. As revistas em que os resultados falseados foram publicados são conceituadíssimas, com factores de impacto enormes o que é reflexo do rigor colocado na revisão dos trabalhos que são propostos para publicação. Mesmo assim, surgiram estas fraudes (provavelmente haverá mais; acho que foi Hitchcock que disse que o crime perfeito existe mas como é perfeito não tomamos conhecimento dele) e uma das reacções na comunidade científica foi a de começar a questionar os métodos de revisão dos trabalhos submetidos (esta é uma boa consequência a que me referia no início). O último número da Nature vem com várias cartas, algumas das quais com sugestões radicais como a introdução das forças do mercado para melhorar o sistema, a diminuição do número de publicações para evitar a divulgação de trabalhos inúteis (considerados também como uma forma de fraude), auditoria a resultados publicados, defesa de maior contacto entre "referees" e editores (de facto aconteceu-me a mim como "referee" discordar de uma afirmação particular no artigo analisado que não foi tido em conta pelo editor sem que me tivessem sido dadas explicações).
Das reacções que li, nenhuma pôs em causa o sistema de revisão pelos pares (esta é a segunda: valorização do que temos; apesar de tudo, a ciência é das actividades humanas mais abertas à discussão com constantes avaliações dos resultados publicados), no entanto foram apontadas muitas deficiências que são sentidas por todos. Para mim, parece-me que uma maior abertura do sistema de revisão por árbitros, tornando-o mais transparente, com maior contacto entre os intervenientes no processo será inevitável (o extremo destas alterações será a aplicação da filosofia "open access" ao sistema, de que já dei referência anteriormente.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Gazeta do Cenjor


Num país em que se divulga muito pouco (se pesquisarmos na internet qualquer assunto científico em português, o que surge é quase exclusivamente brasileiro), é de saudar a iniciativa da criação duma gazeta de divulgação de Ciência e Tecnologia, dirigida por Fernando Cascais. A iniciativa partiu de um grupo de estudantes de jornalismo de Ciência e Tecnologia do Cenjor ligados à ciência; de acordo com a sua declaração de apresentação da publicação, "espiolhámos o mundo que nos rodeia com olhos de jornalistas e não como cientistas, que somos ou já fomos ". Com aspecto gráfico simples e linguagem acessível, esta publicação pode contribuir para a abertura da comunidade científica à sociedade (não consegui ainda perceber o modo de divulgação da revista, o que pode ser importante). Desejo longa vida à Gazeta do Cenjor e fico à espera do número seguinte em finais de Fevereiro.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Arbitragem "open access"

No pouco tempo que me resta no meio das actividades lectivas e de avaliação, a navegação por blogues ajuda a encontrar assuntos interessantes (as leituras vão-se adiando...). É o caso do conceito "open access" estendido aos revisores dos artigos submetidos por parte da revista Biology Direct, que encontrei no blogue sciencebase de David Bradley. Esta revista que se orgulha de servir a comunidade científica com artigos sempre de acesso livre, com arbitragem científica e online, acaba de anunciar um novo sistema de arbitragem. As alterações são drásticas: autor responsável pela obtenção dos relatórios dos "referees", via corpo editorial da revista; processo de arbitragem aberto em vez de anónimo; e publicação dos relatórios produzidos pelos "referees" juntamente com o artigo. As vantagens são evidentes a nível da responsabilização do processo de arbitragem e de possível tendência para a imparcialidade. Obviamente, não vai resolver os problemas com que nos deparamos, com alguma frequência, de abusos na arbitragem. No entanto, pode ser que alguma coisa mude para melhor no rescaldo do escândalo Hwang.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Moment of Science: Metabolism of Evolution Information in the Blogosphere


Moment of Science: Metabolism of Evolution Information in the Blogosphere.
O metabolismo da informação na blogosfera representado graficamente no blogue Moment of Science. Há muitas vias metabólicas específicas da blogosfera norte-americana, principalmente no que diz respeito há questão criacionismo/evolução. Gostei da enzima Evolutionblog Clarificase que cataliza a conversão de leigos confusos em povo informado e que leva à libertação de fotões, ou seja, faz "luz"!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Zepto e yocto

yotta zetta exa peta tera giga mega kilo hecto deca deci centi milli micro nano pico femto atto zepto yocto
Y Z E P T G M k h da d c m µ n p f a z y

A entrada na era molecular por parte da biologia, mostrou aos biólogos o mundo do infinitamente pequeno, não só no que diz respeito à manipulação de moléculas e na necessidade de conceber a dinâmica dos sistemas biológicos com base na intervenção de algumas moléculas, mas também nas quantidades de muitas delas no interior de uma célula, ou até, no interior de organismos multicelulares. Num artigo acabado de divulgar do escritor de ciência David Bradley, surge uma discussão interessante sobre este mundo infinitamente pequeno e o seu significado em química analítica e em biologia. A utilidade de prefixos que agora começam a ser usados para designar quantidades pequeníssimas, em resultado do desenvolvimento de tecnologia analítica que permite cada vez maior sensibilidade, surge aqui explicada. São o zepto (10e-21, símbolo z) e o yocto (10e-24, símbolo y). Na prática, o zepto representa entre 600 e 600.000 moléculas e o yocto entre 1 e 600 (como Bradley refere no artigo, há ainda alguns prefixos latinos disponíveis para nomear quantidades menores, mas esperar que haja amostras com menos de uma molécula de uma dada substância analisada é um bocado exagerado!).

O artigo prossegue com uma discussão sobre "instrumental detection limit" e "method detection limit" (este é o real, uma vez que é o que é influenciado pelo tratamento da amostra e toda a sua manipulação) no contexto da quantificação de zeptomoles e de yoctomoles. O desenvolvimento que a nanotecnologia está a trazer à química analítica com a possibilidade de quantificar metabolitos numa só célula também é discutido. É impressionante a criação de sistemas de cromatografia de elevada "performance" em microcanais numa lâmina de vidro equivalentes a um milhão de pratos teóricos; é a combinação de quantidades ínfimas de amostra e poderes analíticos infinitos.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Wiki científica II


Via Bioinformatics.org, o projecto de fonte aberta BioPHP tem uma interface wiki para bioinformática. Quem quiser pode contribuir (desde que saiba código PHP claro, o que não é o meu caso). O projecto foi criado por Joseba Bikandi da Universidade do País Basco e as aplicações encontram-se disponíveis aqui.

Medicina personalizada

É a era pós-genómica em pleno que se anuncia. Já o projecto de sequenciação do genoma humano previa uma aceleração do processo à medida que novas tecnologias iam sendo desenvolvidas devido à dinâmica que esse projecto gerava. Agora está aberta a via para a sequenciação a baixo preço e assim democratizar a sequenciação de genomas. Já há um programa de financiamento público (norte-americano...), de mais de 70 milhões de dólares, para desenvolver tecnologia no sentido de baixar o custo da sequenciação de um genoma humano. As empresas de biotecnologia que operam no mercado da sequenciação já se estão a posicionar e as expectativas são bem ambiciosas: de acordo com algumas, o preço da sequenciação poderá baixar dos actuais 11-15 milhões de dólares para 100.000 dólares no próximo ano e, noutro caso, para 10.000 dentro de dois anos, embora uma perspectiva mais "modesta" aponte para 10 anos o prazo para reduzir o custo para 1.000 dólares.
O grande interesse será de facto a possibilidade de se ligar o genoma de um indivíduo à propensão para patologias e assim se conseguir uma profilaxia verdadeiramente eficaz, para além de muitas outras aplicações como o desenho de moléculas terapêuticas personalizado assim como as próprias terapias em geral. Como vem referido no artigo em link: the sky could very well be the limit. As seguradoras também já devem estar alerta.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

As árvores já não morrem de pé

Visto hoje no belíssimo Dias com árvores. Desgraçada da árvore que crescer um bocadinho mais, está tramada, ou lhe cortam os ramos ou abatem-na. Não tem muito que ver com a temática deste blogue, mas é revoltante o modo como são tratadas as árvores. Dizem que é por uma questão de segurança (ramos que podem cair), mas este país está cheio de tabuletas enferrujadas nas bermas dos passeios e de panos pendurados nos postes de iluminação a anunciar espectáculos que ocorreram há meses. Dizem que é por uma questão de requalificação (imagino que seja para arranjo estético...) e é o que se vê. O horizonte das nossas cidades é só prédios amontoados, se surge uma copa de uma arvorezinha no meio dos prédios, lá vai tesourada. Já não bastava a paisagem não urbana deste país que em grande parte é dominada por espécies exóticas (eucaliptos, acácias) que secam tudo à sua volta. Nos ambientes urbanos, as árvores têm pior tratamento que os caixotes do lixo.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Alguma luz na floresta de nomes de genes e proteínas


A rápida produção de informação biológica na área da genómica e proteómica está a levar à criação de bases de dados com grande número de entradas para genes clonados ou sequenciados e proteínas isoladas ou identificadas. É por isso frequente chocarmos com informações não coincidentes quando pesquisamos proteínas ou genes em diferentes bases de dados porque o mesmo nome pode designar entidades diferentes ou então as informações são mesmo contraditórias. Isto pode começar a acabar com o sistema BioThesaurus que congrega cerca de 2,8 milhões de nomes de várias bases de dados biológicas referenciadas na iProClass, uma base de dados integrada de classificação de proteínas. Este sistema faz assim a relação dos nomes sinónimos dos genes e proteínas da maior parte das bases de dados biológicas com todas as sequências de proteínas conhecidas. Deste modo, é possível detectar proteínas ou genes diferentes com o mesmo nome, pesquisar sinónimos de uma dada proteína ou gene, resolver ambiguidades e padronização de nomenclatura.
(Liu et al., 2005. Bioinformatics 22: 103-105)

segunda-feira, janeiro 02, 2006

O surgimento da biologia molecular

Num artigo recente, Eduard Kellenberger, um dos fundadores da EMBO, faz um resumo da evolução da biologia molecular. Estão lá os passos mais importantes dados na biologia, a começar no século XIX com Gregor Mendel e Charles Darwin, a partir da altura em que a biologia passou a ser uma ciência da descoberta de relações funcionais e não, como tinha sido até aí, uma ciência essencialmente descritiva.
Ao comparar a biologia com outras ciências, Kellenberger faz a distinção da complexidade dos sistemas estudados pela biologia: os seres vivos. Aqui a sequência de acontecimentos entre causa e efeito é uma rede multidimensional em vez de uma cadeia curta e linear. Assim, em vez de termos cadeias de causalidade como nos sistemas simples, temos "near-causalities" (desculpem, não consegui arranjar uma expressão em português) nos sistemas complexos em que se obtém a probabilidade de um efeito a partir de uma determinada causa e não uma relação directa causa-efeito.
O holismo como visão global dos sistemas em análise, de que a biologia de sistemas é a manifestação sob a forma de área científica emergente, é também abordada. Por outro lado, o reducionismo reverso é exemplificado na projecção de observações em seres vivos simples para os seres vivos mais complexos. Aqui a vantagem seria a de poupar tempo e esforço através do estudo de organismos simples e fáceis de manipular em laboratório (os tão populares organismos modelo) para se extrapolar para os organismos complexos.
Finalmente, aborda a manipulação de palavras e expressões que ultimamente tem sido feita com o objectivo de atrair financiamento para a investigação. É o caso do uso indiscriminado da expressão biologia molecular e, em particular, da palavra molecular para designar todas as suas "variantes" como por exemplo genética molecular, ecologia molecular e microbiologia molecular. Na era dos "omics", temos também a genómica que serve para designar tudo o que diz respeito ao estudo de genomas e que na verdade designa apenas sequenciação de genomas e proteómica que não é mais do que bioquímica de proteínas . As palavras também têm modas e na ciência isso tem sido bem evidente
(este blogue é um reflexo disso, confesso, a começar pelo título); é curioso como a palavra química caiu em desuso a favor da palavra molecular.