terça-feira, setembro 28, 2010

BSA


A bovine serum albumin (607 aminoácidos; 66,4kDa; estrutura na imagem tal como aparece na Protein Data Bank) serve para tudo, desde preparação de soluções padrão para quantificar proteína em amostras, a adjuvante de reacções enzimáticas em biologia molecular e em imunoquímica para reacções antigénio-anticorpo. Estas são algumas das utilizações da BSA no laboratório.


O seu papel biológico também é diverso. É a proteína sérica mais abundante e que mais contribui para a pressão oncótica que permite o fluxo constante de fluídos do meio extracelular para a corrente sanguínea (há formas de edema que são causadas por proteinúria, por exemplo). Mas há mais, muito mais. É uma proteína com grande afinidade para o estabelecimento de ligações com pequenas moléculas e iões. Muitas destas moléculas são apolares e, assim, o seu transporte pela corrente sanguínea é feito sob a forma de complexos com a albumina. Como exemplos temos hormonas, ácidos gordos e bilirrubina.


Ao ligar fármacos administrados ao organismo modula a sua biodisponibilidade pois gera-se um equilíbrio entre a fracção solúvel no plasma (que depende da polaridade do fármaco e é a que está disponível para a ligação ao alvo terapêutico) e a fracção ligada à albumina (sem acção farmacológica). À medida que a fracção solúvel se liga ao alvo terapêutico, baixa a sua concentração no plasma e o equilíbrio adapta-se de modo a libertar moléculas do fármaco ligadas à albumina. Assim, os níveis plasmáticos mantêm-se constantes e o efeito terapêutico prolonga-se.


É claro que isto não é para sempre. Quando a fracção ligada à albumina já não compensa a que se liga aos alvos terapêuticos, os níveis plasmáticos baixam, podendo ficar abaixo da concentração mínima com efeito farmacológico. Antes disso acontecer, há que tomar mais um comprimido.

domingo, setembro 26, 2010

I'm back!

Após um longo período de silêncio, volto aos posts para os alunos. Desta vez são os de Bioquímica Analítica (licenciatura em Bioquímica).

Sejam bem-vindos!

Homogeneizador de lâminas. Quais são os problemas associados a este processo de homogeneização? Como é que se podem evitar?

quarta-feira, maio 06, 2009

Professor Baltazar

Um dos maiores cientistas de todos os tempos (uma homenagem ao Vasco Granja que marcou uma, ou mais, gerações de miúdos).


Koniec

terça-feira, março 24, 2009

Sinalização celular


Serve para tudo, desde a simples indicação de se manter viva, de se alimentar (transportar glucose e metabolizá-la) e até para cometer suicídio. As células só fazem aquilo que lhes é indicado.
Lindas meninas! Bem comportadas!

G Protein Receptor

sexta-feira, dezembro 19, 2008

"Green-beard gene" em levedura


Saccharomyces cerevisiae (foto: Masur)
O gene FLO1 responsável pela floculação (agregação de células) da levedura nas fermentações, parece ser o exemplo mais perfeito de um gene "green-beard". Este conceito foi introduzido por WD Hamilton e os exemplos são raros. Aparentemente, a levedura como micróbio que é seria o candidato menos provável a esta distinção. Na verdade, o altruismo genético parece ser mais provável em organismos pluricelulares com organização social (abelhas, mamíferos, etc) do que no mundo microbiano.

C

terça-feira, novembro 25, 2008

"...fruit flies make beautiful experiments possible"

Numa época de upgrading de tudo o que é publicado (o comum "puxar a brasa à sardinha"), uma reflexão sobre a comunicação científica em comunicados de imprensa. Como foi sugerido por P.Z. Myers, e se a palavra "importante" fosse substituída por "belo"?

sábado, novembro 15, 2008

Helicase de emparelhamento "specifically designed"

Uma notícia que me chamou a atenção pelo interesse da descoberta de uma proteína que faz o papel inverso da helicase, ou seja, em vez de desnaturar DNA (separar as duas cadeias da molécula), o que ela faz é renaturar (emparelha as cadeias de DNA em cromossomas que apresentam desemparelhamentos). Proteínas que "mexem" no DNA como se fosse um elástico já se conheciam, desatando nós por exemplo, mas esta, a HARP, manipula o DNA duma forma que ainda não tinha sido previsto ser necessário. Depois de descoberta, é mais fácil imaginar uma função biológica como, por exemplo, a tensão mecânica acumulada por desenrolamento da molécula poder levar ao desemparelhamento em determinados locais das duas cadeias. Nestes casos a HARP corrige a molécula promovendo o reemparelhamento das cadeias.

Esta é a parte científica que me tinha chamado a atenção. O meu espanto, se calhar maior do que a descoberta da HARP, foi encontrar a seguinte frase:

The discovery represents the first time scientists have identified a motor protein specifically designed to prevent the accumulation of bubbles of unwound DNA, which occurs when DNA strands become improperly unwound in certain locations along the molecule.

Nesta frase está um erro científico que não deveria surgir, a menos que a entrega destes textos de divulgação esteja a cargo de pessoal sem formação na área científica (o que, mais uma vez, nunca deveria acontecer). Refiro-me ao "specifically designed" que remete a criação da HARP para uma entidade inteligente com capacidade de análise do problema do desenrolamento do DNA e de programar a formação de proteínas capazes de corrigir esse defeito. Essa entidade poderia ser Deus ou, até, a própria célula. Como se pode constatar, isto já não é ciência e a presença desta expressão num texto de divulgação científica transmite uma ideia totalmente oposta áquela que deveria ser veiculada: os sistemas biológicos são o produto da evolução e selecção natural de longos períodos de tempo à escala geológica por mecanismos de produção de variação, nomeadamente de proteínas, e de selecção daquelas que conferem uma vantagem competitiva. Neste contexto a HARP não foi especificamente desenhada para prevenir a acumulação de bolhas de DNA desemparelhado mas, sim, a actividade da HARP faz com que as células não acumulem bolhas de DNA desemparelhado. E pronto, a carga determinista desaparece. Esta pequena diferença na escrita faz uma diferença do tamanho do mundo nos conceitos científicos.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Não há mais

Link
Parece que o tirolês que ficou preso num glaciar há 5300 anos pertencia a uma linhagem que se extinguiu. A análise do seu DNA mitocondrial determinou um haplogrupo que não se encontra nos europeus modernos. Enfim, ficou o seu corpo preservado no gelo para nos testemunhar esta linhagem sem sucesso. A nível molecular já bateu um recorde: o especimen de Homo sapiens mais antigo com o DNA mitocondrial sequenciado. Há muitas formas de atingir a fama; esta é original.

domingo, outubro 26, 2008

Fome, olfacto e longevidade


Foto: Keith Kbradnam

Vermes (Caenorhabditis elegans) com neurónios envolvidos na detecção de alimento afectados vivem mais apesar de se alimentarem normalmente (ver aqui e aqui, com um título bem explícito). Lá se vai a restrição calórica como processo de prolongamento do tempo de vida.

O que parece ser mais importante para um aumento do tempo de vida é a sinalização de falta de alimento.
Por isso os vermes atingem tempos de vida prolongados tanto com restrição calórica como com etosuximida que inibe os tais neurónios cuja actividade está aumentada quando há presença de alimento (aquilo que corresponderá ao olfacto). Assim, parece que a sinalização de ausência de alimento (mesmo que mentirosa) induz o organismo um estado de adaptação que leva ao abrandamento do metabolismo, do crescimento e prolongamento do tempo de vida.

Afinal poderemos prolongar a nossa vida sem passar fome! No entanto, se for à custa da etosuximida, não tiramos muito proveito pois um dos efeitos secundários é a perda do paladar.

sexta-feira, outubro 24, 2008

A treta do Magalhães (o computador, que o navegador não tem culpa nenhuma)


Estou a ficar convencido que há um processo de imposição do Magalhães nas escolas. O pior é que quem vai lucrar é o governo na sua campanha eleitoral, pois os utentes vão receber uma máquina obsoleta que, mesmo por 50€, me parece cara (é ver alguns comentários aqui). Bom, parece que vem aí uma versão nova com o processador atom. Vai sair mais caro (sem se saber quanto pois "não convém") nas lojas mas sem alteração de preço nas escolas, o que quer dizer que vai sair mais caro aos contribuintes.

Sou contra estas modas dos planos tecnológicos enquanto programas centralizados em gabinetes de instituições criadas
em ministérios onde abundam burocratas que têm que justificar a sua existência com iniciativas deste género, ignorando que a adesão às novas tecnologias requer formação sólida de base em escolas, com computadores, claro. Parece-me que se está a deixar para segundo plano, no 1º ciclo, aprender as bases da leitura, escrita e matemática que dão as competências essenciais em toda a aprendizagem posterior. Eu que sou professor, constato diariamente esta falta de bases. Custava muito menos ao estado fornecer 30-40 portáteis (dos bons) a cada escola que seriam utilizados rotativamente por todas as turmas nas actividades de informática, do que andar nesta onda do choque tecnológico. Alguma vez pensaram que um miúdo com um computador na mochila é um alvo fácil para ser assaltado? E na escola, não haverá miúdos a roubar e a andar aos pontapés aos computadores dos colegas?

Estive a ver o site do portátil Magalhães e fiquei estarrecido com algumas pérolas como esta: "Uma das respostas que muitos leitores do blog têm feito, e que nalguma medida tem ficado sem resposta, dadas ainda algumas indecisões, prende-se com as ofertas específicas de Internet banda larga para o Magalhães" Não, não são as "respostas que muitos leitores do blog têm feito" (!), são as "algumas indecisões" sobre a internet. Isto tem muito que se lhe diga. O formulário que é entregue na escola aos miúdos para os pais preencherem tem, no campo inferior (ver figura), uma escolha de operador de comunicações e, depois, a escolha de opção de acesso à banda larga. Como é que o operador tem que ser escolhido se eu posso prescindir da banda larga? Só vejo uma resposta possível: por defeito, o computador vem com acesso à internet, sem ser por banda larga, e disponibilizado por um dos operadores que constam no formulário. Acontece que eu tenho internet por cabo da Bragatel; teria que ter uma segunda conta de internet? Nada disto é esclarecido no site do Magalhães nem é informado no documento fornecido pela escola juntamente com o formulário. E no entanto, já nos pedem para aderir...